Saúde mental virou discurso — e o adoecimento continua crescendo

Nos últimos dias, algumas notícias voltaram a chamar atenção:

Aumento dos afastamentos por burnout;

Crescimento dos adoecimentos emocionais,

E a escalada do endividamento.

Sinceramente? Isso não me choca. Me incomoda.

Desde 2021 falamos com mais força sobre saúde mental. Temos mais informação, mais estudos e mais acesso ao tema do que nunca. Ainda assim, ano após ano, os números só aumentam. A sensação é clara: o conhecimento cresceu, mas a consciência não acompanhou.

Tenho a mesma impressão que Mario Sergio Cortella descreve sobre a educação: escolas do século XIX, professores do século XX e alunos do século XXI.

Nas empresas, vejo algo parecido: culturas organizacionais do século XIX, líderes com estratégias do século XX e pessoas vivendo as dores do século XXI.

O resultado é um desalinhamento profundo entre cultura, liderança e pessoas.

Na prática, o que vejo são líderes cansados, pressionados, muitos já em burnout, tentando sustentar um modelo que não se sustenta mais. Pouco se fala sobre algo essencial: o ser humano está desconectado de si mesmo.

Costumo dizer que a empresa é o palco onde o problema aparece — mas não é onde ele nasce. Ainda assim, é a empresa que paga a conta.

Burnout não nasce apenas do excesso de trabalho. Ele nasce da falta de sentido. Quando não se enxerga o “porquê” do que se faz, o esgotamento deixa de ser só físico e se torna existencial.

Tratar saúde mental como benefício ou ação pontual é perigoso. É como tomar analgésico para uma perna quebrada sem nunca tratar a fratura. Enquanto saúde mental for vista apenas como um problema organizacional, ela continuará sendo discutida — sem ser resolvida.

O mesmo vale para o endividamento. Ele raramente é conectado à saúde emocional. Pessoas esgotadas buscam prazer imediato, gastam mais, se endividam e entram em um ciclo silencioso de ansiedade e queda de desempenho. O endividamento hoje não é só financeiro. Ele é emocional.

Esse cenário exige outro tipo de liderança. Não apenas líderes focados em cobrança por resultados, mas líderes dispostos ao autoconhecimento, à inteligência emocional e à autorresponsabilidade.

Não existe saúde mental nas empresas sem reflexão, autoconsciência e autorresponsabilidade.

Talvez a pergunta que as empresas precisem se fazer não seja: “Quanto custa cuidar das pessoas?”, mas sim: qual é o preço que já estamos pagando para continuar vivendo e trabalhando dessa forma?

O que você tem percebido aí na sua realidade?

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